O Chamado de um Profeta

06/05/2011 15:33

O Chamado de um Profeta

por Juracy Carlos Bahia

“Todos os que ouviam falar disso se perguntavam: O que vai ser este menino? Pois a mão do Senhor estava com ele” (Lucas 1:66).

O agente principal que Deus usa para chamar, preparar, enviar, sustentar e acompanhar seus profetas é a igreja local (Atos 13:2). Os outros agentes - igualmente importantes neste processo, desde o seu início - são a família e os mentores de pastores (pessoas que guiam ou acompanham). Durante a formação do obreiro, a experiência tem mostrado a contribuição dos seminários e institutos bíblicos e, no tempo do envio, as agências missionárias muito têm ajudado.

O menino profeta nasce, portanto, no seio da igreja local. Falhas podem acontecer no nascedouro das vocações. Jesus disse que só em sua própria terra e em sua própria casa é que um profeta não tem honra (Mateus 13:57). Antes de ser um ministro reconhecido, o ungido do Senhor viverá alguns anos na igreja local, o que poderá ser um período rico em experiências. Este período é, muitas vezes, o alicerce da vida do obreiro, e a construção de seu ministério não pode ser maior do que o alicerce possa suportar. Muito do que virá a ser um líder pastoral dependerá de suas atitudes nesta fase inicial e do tratamento que receber da igreja, dos mentores e da família.

Um relacionamento honesto e piedoso com um mentor experimentado tem tremenda repercussão sobre o futuro do vocacionado. Famílias bem educadas serão um esteio para toda a vida do ministro, especialmente do ponto de vista emocional. Igrejas locais saudáveis e amorosas serão a grande motivação do ministro. Como erros médicos podem comprometer uma vida, erros pastorais podem ter conseqüências escatológicas. Por isto, pastores precisam ser orientados desde muito cedo. Pastores bem orientados erram menos.

Há exigências do discipulado cristão que se aplicam exclusivamente aos líderes, mas não há exigência bíblica que os líderes estejam liberados de observar. Os padrões para o ministério devem ser elevados, e uma conversão genuína será a primeira exigência da verdadeira chamada para o ministério. É impossível um ministério abençoado sem que o ministro tenha vivido uma real experiência de arrependimento, encontro pessoal com o Cristo Salvador e ter experimentado o perdão de seus pecados, uma convicção plena de salvação e de que foi selado com o Espírito Santo. Os agentes de apoio devem ajudar o vocacionado a desenvolver sua identidade em Cristo. Disto dependerá o seu ministério. Quem se engana nesta área também poderá se enganar em muitas outras áreas da experiência ministerial.

O segundo traço característico de um ungido por Deus tem a ver com o caráter. Esta história de que fulano deu um trabalhão ao seu pastor, dava cheque sem fundos e colava durante seu tempo de seminário e se tornou um famoso pastor não é um padrão bíblico nem exemplo a ser seguido. Uma vez convertida, a pessoa deverá revelar o fruto do Espírito. Em João 2:16 vemos o Senhor Jesus dizendo aos que vendiam pombas no Templo: “Tirem estas coisas daqui! Parem de fazer da casa de meu Pai um mercado!” O que deve diferenciar estes homens e mulheres ungidos por Deus não é o QI (Coeficiente de Inteligência), mas o QC (“Coeficiente de Caráter”). Eles encaram a vida de um modo diferente. Eles tratam com maior ênfase conceitos como verdade, obediência, responsabilidade, coragem, justiça, perseverança e serviço. Percebe-se um radicalismo no caráter deles, mesmo ainda quando menino. Quando era ainda uma criança, havia uma determinação especial em Jesus: “Não sabiam que eu devia estar na casa de meu Pai?” (Lucas 2:29).

A uma conversão genuína e um caráter irrepreensível vai se juntar uma inquestionável consciência de chamada divina. Ele chama gente convertida, sincera e apaixonada pelo Reino. Muitas vezes estes indivíduos lutam para entender a chamada e isto não é, necessariamente, desobediência. Pode até ser zelo. Leia a experiência de Gideão no capítulo 6 de Juízes. Há casos em que os agentes de apoio percebem a chamada antes mesmo do vocacionado. Isto é feito basicamente por observação. “O SENHOR chamou Samuel pela terceira vez. Ele se levantou, foi até Eli e disse: “Estou aqui; o senhor me chamou?” Eli percebeu que o SENHOR estava chamando o menino” (I Samuel 3:8). “Todos os que ouviam falar disso se perguntavam: “O que vai ser este menino?” Pois a mão do Senhor estava com ele.” (Lucas 1:66). “O pai e a mãe do menino estavam admirados com o que fora dito a respeito dele” (Lucas 2:33).

Aparentemente está aumentando o número de profetas auto-declarados. Aquela resistência normal, querendo que Deus confirme a chamada, é substituída por uma precipitação em busca de reconhecimento profético. Se Deus chamou, Ele tomará providências para deixar clara sua vontade, inclusive levando o seu povo, a igreja local, a reconhecer a ação do Espírito na chamada de mais um obreiro. Ninguém precisa brigar para ser ungido.

Conversão, Caráter e Chamada (CCC) são questões básicas e pessoais e formam o tripé da autoridade ministerial sem a qual o obreiro não conseguirá ser bem sucedido. Isto tudo, embora essencial, não é suficiente. Há pastores sérios, bem intencionados, realmente apaixonados pelo Senhor, cujos ministérios são destruídos ou encerrados precocemente por falta de orientação e de preparo. O ministério pastoral é uma luta contra o mal e para se sair vitorioso será necessário ter conhecimento, habilidade e atitude (CHA). Estas exigências podem ser aprendidas ou desenvolvidas. A Topic Brasil (Associação de Capacitadores de Pastores) sugere uma lista de grandes áreas onde um líder pastoral deve se desenvolver. Alguns itens desta lista podem ser enfatizados neste período da vida do vocacionado que antecede sua manifestação pública.

Relacionamento com Deus. Um obreiro precisa desenvolver a experiência de sentir o calor da presença do Senhor. Nada garante que no seminário ele desenvolverá uma disciplina devocional que não tinha antes. Livros como Retorno à Santidade precisam ser devorados por esses obreiros.

Relacionamento consigo mesmo. Um dos maiores desafios do quadro de obreiros de qualquer denominação é elevar o percentual de obreiros saudáveis emocionalmente. Gente que se deixa ensinar e que pode trabalhar em equipe.

Relacionamento com a família. José do Egito muito pode ensinar aos novos vocacionados. Mesmo vivendo em uma família que não soube respeitar sua vocação ele clamou: “Cheguem mais perto, sou eu José, vosso irmão... Meu pai ainda vive?” Não há sucesso ministerial com fracasso familiar.

O jovem vocacionado deve aprender a amar e a servir o povo de Deus - a morrer por ele se necessário. E como ele aprenderá isto senão no relacionamento com a sua igreja local, tendo o respaldo da família e a orientação de um bom mentor?

Um obreiro precisa desenvolver o estilo de estar sempre se auto-avaliando e buscando crescer e aprender. Um dos maiores desafios do ministério – e isto é assunto para outro momento – é manter-se atualizado e em amadurecimento. Não há tanta vantagem em ser um bom obreiro durante um curto período de tempo. A virtude está em combater durante toda a vida ministerial, terminar a corrida – muitos não terminam – guardar a fé e receber a coroa da justiça, que o Senhor, justo Juiz, nos dará naquele dia.

A Igreja, a família e os mentores devem perceber quando Deus está chamando um dos seus filhos para o ministério. Conta-se que o professor de composição de Beethoven dizia que seu aluno era um caso perdido, que nunca aprendeu nem aprenderá coisa alguma. Quão triste é a igreja errar ao não perceber a chamada de um ungido do Senhor e não oferecer o ambiente propício ao seu desenvolvimento! Evidentemente os agentes de apoio podem se ajudar mutuamente. As agências missionárias e a Ordem de Pastores podem ajudar as igrejas e os seminários a aperfeiçoarem a orientação e a formação dadas aos vocacionados, para que os futuros obreiros possam atender melhor às necessidades dos campos. Os seminários podem ajudar as igrejas a refletirem sobre seu processo de seleção, diminuindo o envio de candidatos sem comprovada evidência de chamada. As igrejas podem ajudar as famílias a estarem preparadas para receber, com alegria e oração, esses ungidos do Senhor.